Evento discute manejo sustentável da caatinga

28
abr

Evento discute manejo sustentável da caatinga

Presente em 11% do território nacional, em grande parte no Nordeste, a caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, com fauna e floras únicas que formam uma vasta biodiversidade de recursos genéticos e de vegetação natural.

De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente, a caatinga possui 932 espécies de plantas, 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes.

Em Sergipe, o Inventário Florestal Nacional publicado ano passado aponta que a caatinga ocupa juntamente com a Mata Atlântica apenas 13% da cobertura florestal local.  O levantamento revela ainda a massiva exploração de madeira em áreas de desertificação como uma das ameaças ao ecossistema na região. Segundo o estudo, o volume de madeira estocado na área da caatinga no estado é de cerca de 3,8 milhões de m³ (26 m³/ha).  Garantir o manejo sustentável dos recursos naturais do bioma é fundamental para a sua preservação.

Essa discussão esteve presente entre quilombolas, indígenas, catadoras de mangaba, agricultores, estudantes, professores, ativistas e representantes de movimento sociais rurais de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Bahia e Ceará que participaram no último dia 27 de abril do Encontro Dia da Caatinga Convivendo com o Semiárido: Produção e Sustentabilidade Hidroambiental, realizado em Piranhas, em Alagoas, no Centro Xingó de Convivência com o Semiárido.   

O encontro foi realizado pelos projetos patrocinados pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e Governo Federal que atuam na conservação da caatinga em Sergipe, Alagoas e Ceará através das instituições Sociedade Socioambiental do Baixo São Francisco Canoa de Tolda, Instituto Palmas, Associação Caatinga e Associação das Catadoras de Mangaba de Indiaroba. O evento contou com a parceria da Universidade Federal de Sergipe e Centro Xingó de Convivência com o Semiárido.

Os participantes trocaram experiências com os projetos socioambientais Renascendo (Alagoas), Opará: águas do rio São Francisco (Sergipe), No Clima da Caatinga (Ceará) e Rede Solidária de Mulheres de Sergipe sobre modelos e alternativas de produção sustentáveis que enfrentem o intenso processo de degradação ambiental gerado pelo manejo inadequado do solo, da água e da floresta do bioma.

A iniciativa reuniu 140 participantes e marcou as comemorações ao Dia Nacional da Caatinga, celebrado em 28 de abril.  Além de comunidades tradicionais, o encontro teve a participação de professores e estudantes da UFS, Universidade Federal de Alagoas, Instituto TerraViva, ONG Agendha, Cooperativa de Pequenos Agricultores Agrícolas de Bancos Comunitários de Sementes (Coppabacs) da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

Na mesa redonda, intitulada sustentabilidade hídrica, os debates foram abertos com discussões sobre a importância de adoção de políticas públicas de práticas sustentáveis para a convivência com o semiárido relacionadas ao tratamento e escassez de água na região e implicações para proteção do bioma de restinga da caatinga.

O professor da UFS e coordenador do Projeto Opará: águas do Rio São Francisco, Antenor Aguiar, chamou a atenção para a necessidade de aplicação de políticas públicas para o semiárido que atendam a segurança hidroambiental e conservação da caatinga como resposta a processos históricos que marcam ciclos de atraso econômico e desigualdades socioambientais que afetam a região. “Existem muitos semiáridos e muitas caatingas e com conjunturas diferenciadas que nos faz lembrar uma frase de que o problema do semiárido não é seca, é cerca. Então temos uma grande extensão de terra na mão de poucos proprietários que durante décadas armazenam água e não deixam que outras pessoas tenham acesso à agua e se apropriam de políticas públicas. Outro grave problema é que temos uma região de caatinga com uma população carente de recursos financeiros e educacionais, sem acesso a políticas públicas essenciais como a distribuição de renda com continuidade das tecnologias sociais”, destacou Antenor Aguiar.

Para o professor da UFS e integrante do projeto Opará, Airon Silva, que estuda a salinidade de solo no Assentamento Jacaré-Curituba, região semiárida de Sergipe, “são necessárias políticas públicas para maior conhecimento e educação ambiental de diagnóstico de processos de degradação na região para aplicação de alternativas de manejo sustentável do solo, da água e da caatinga de forma adequada e que evite a salinização hídrica que torna as áreas improdutivas”, explica.

O papel das políticas públicas pensadas a partir das tecnologias sociais no fomento e incentivo de práticas de preservação da caatinga foi outro assunto do evento. “A Asa pensa a tecnologias sociais abertas que podem ser recrutadas pelas famílias na aplicação de alternativas para construir um novo modo de vida e um canal de diálogo com as comunidades com o objetivo de discutir quais políticas são mais adequadas para aquela realidade e contexto”, ressalta Mardônio Alves da Graça, coordenador institucional da Coppabacs/ASA de Alagoas.

 

“A caatinga não é um bioma pobre”

A produção na caatinga foi o segundo tema discutido no encontro. “Para produzir é preciso que a gente alie saber popular ao saber técnico e construa alternativas de convivência com o semiárido. Isso não é repetição de palavras, mas de força!”, apontou Valda Aroucha, da ONG Agendha, que atua em Paulo Afonso (BA), destacando ainda o manejo sustentável da caatinga de uso múltiplo. “Todas as alternativas são importantes”, avaliou.

Ricardo Ramalho, representante do Instituto TerraViva, de Paulo Afonso (BA), chamou a atenção para a necessidade de desmistificar e ressignificar a imagem reproduzida pelo senso comum sobre o que é a caatinga. “Precisamos sair da cultura do ‘coitadismo’. A caatinga não é um bioma pobre”, avaliou. Em relação ao evento, ele destacou que “a metodologia utilizada permitiu uma ampla participação dos presentes. Fugiu do lugar comum das palestras em que, geralmente, apenas, se ouve. As oficinas, por outro lado, valorizaram os aspectos vivenciais. Não basta saber, ter acesso à informação. É preciso, sobretudo, fazer, vivenciar”, observou.

A participação das comunidades locais no evento foi destacada pela coordenadora do Projeto Renascendo, Maria do Carmo Vieira. ”Comemoramos o Dia da Caatinga com os catingueiros que  se reuniram para pensar nas potencialidades e restrições  hídricas e produtivas da caatinga, e nos cuidados para a sustentabilidade  da natureza e da vida humana no bioma. Foi muito marcante a presença e o interesse dos agricultores e agricultoras familiares, pessoas que vivenciam o cotidiano do semiárido e que participaram das atividades com o interesse de quem trata de suas questões do dia a dia; Louvável, bem sucedida e digna de ser repetida, a iniciativa dos projetos patrocinados pela Petrobras, somando esforços para viabilizar ações que, a partir do local, discutem e atuam na realidade regional”, avalia.

A coordenadora da Rede Solidária de Mulheres de Sergipe, Mirsa Barreto, falou da importância de todas instituições envolvidas no encontro se somarem a uma rede solidária para fortalecimento de ações coletivas que contribuam para melhorias das comunidades atendidas pelos projetos. “É preciso que a gente faça um esforço de se fortalecer entre os grupos sociais, associação e movimentos de resistência para efetivação de políticas públicas que de fato atendam aquilo que nós precisamos em nossas vidas”, disse.

Para Gilson Miranda, Coordenador de Conservação do Projeto No Clima da Caatinga, no Ceará, “os momentos vivenciados no encontro ajudarão a todos os projetos envolvidos. Foi um momento que trouxe muita troca de experiência tanto para futuros intercâmbios como também ações que podem ser aplicadas em cada região de atuação de cada projeto. Eventos assim são de suma importância para trazer mais força para a Caatinga e mais pessoa engajadas na causa”, afirma.

Durante o evento, também foram realizadas as oficinas sobre produção de mudas, com o engenheiro florestal e coordenador de restauração/monitoramento do projeto Opará, Thadeu Ismerim; tecnologias sociais para a convivência com o semiárido, com Gilson Miranda (No Clima da Caatinga), recuperação de nascentes, com Pablo Vieira Tomás (Renascendo) e Sistemas Agroflorestais Irrigados, com Ricardo Ramalho (Instituto TerraViva), além de uma roda de conversa exibição de um documentário sobre as Catadoras de Mangaba (Rede Solidária de Mulheres de Sergipe). O evento foi encerrado com o plantio simbólico de mudas de umbuzeiro realizado pelos participantes do encontro.

“Através da oficina foi possível trocar experiências com as comunidades tradicionais sobre o manejo florestal sustentável da caatinga para a preservação deste rico bioma, tão necessário para o semiárido e conservação natural da sua vegetação local”, enfatizou Thadeu Ismerim.

Para Helena de Araújo Ambrósio, presidente da Associação das Mulheres Artesãs Quilombolas da Serra das Viúvas (AMAQUI), em Alagoas, a oficina de produção de mudas foi uma oportunidade de conhecer melhor o manejo das plantas que ela já realiza na comunidade. “Foram duas horas de aprendizado que vou levar para a minha comunidade.  É muito importante participar de eventos como estes para que a gente possa trabalhar com a população local e se desenvolva cada vez mais”, diz. 

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